A prática de criar arte em torno do cotidiano, do mundano ou das rotinas diárias se tornou um tanto clichê. Faz sentido, considerando que os artistas geralmente se inspiram nos detalhes de suas próprias experiências de vida. Mas o animador e artista Hewa, de Kyoto, Japão, pega esses momentos comuns da vida e os transforma em histórias que não são exatamente naturezas-mortas, mas sim histórias que se movem, que acontecem, que respiram.
“Não confio muito na minha imaginação, então costumo criar obras baseadas em coisas que realmente vivenciei”, revela o artista. “Quero animar aqueles estados indescritíveis onde todos os tipos de emoções se misturam.” Nessas microanimações (que fazem sucesso nas redes sociais, tanto pela curta duração quanto por serem janelas para mundos ora assombrosos, ora serenos), Hewa anima mulheres sonhando com outras realidades, convidados para um jantar presos em um estado perpétuo de riso e ruas vazias ladeadas por casas tortas.

“Sempre crio meu trabalho pensando naqueles que lutam para encontrar seu lugar nesta sociedade. Portanto, ficaria verdadeiramente encantado se essas pessoas pudessem ver meu trabalho e encontrar algum tipo de ressonância nele”, diz Hewa. Às vezes, suas obras evocam a atmosfera de cinema de arte de Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles, de Chantal Akerman; outras vezes, lembram filmes de terror atmosféricos como Hereditário ou até mesmo A Casa Monstro.

Mas, em sua maioria, essas obras se sustentam por si só, com uma textura pictórica única, empoeirada, e um estilo levemente geométrico que lembra anime em cel-shading. Hewa está trabalhando em um curta-metragem original, cuja produção começará no próximo ano, mas, até lá, vale dar uma olhada aqui e fazer um passeio pelos quadros sussurrantes dos mundos singularmente surreais deste animador – e tentar não se perder neles.



