Uma das imagens promocionais do curta metragem “Duas Pessoas Trocando Saliva” é um close em preto e branco de uma mulher, com o rosto machucado, o nariz sangrando e os olhos vidrados de êxtase. O que podemos pensar dos sentimentos que essa mulher desperta: a resposta reflexiva de angústia, seguida por uma curiosidade mais cultivada e, portanto, reprimida? O que poderia doer e surpreender tão a fundo?

O filme, indicado ao Oscar 2026, é uma fábula sobre intimidade e consumismo ambientada em uma versão distópica de Paris, onde o toque romântico, especialmente o beijo, é proibido, punível com a morte. Uma tragicomédia que satiriza as hipocrisias e ironias do Ocidente reprimido, concebida pelo casal de diretores, Alexandre Singh e Natalie Musteata.

Desde 2021, as Galeries Lafayette, a luxuosa loja de departamentos parisiense, convidam cineastas para usar seus interiores à noite. Singh e Musteata, parceiros na vida e no trabalho, exploram a estética da boutique, um glamour geométrico austero, para sua história buñueliana de tristeza burguesa. O filme é narrado em capítulos.

O primeiro se chama “Le Jeu” (“O Jogo”). Uma narradora, com a voz da atriz luxemburguesa Vicky Krieps, não divina, mas melancólica e lúdica, nos apresenta Malaise (Luàna Bajrami), uma vendedora ingênua com olhos brilhantes, contrariando o significado de seu nome (Malaise significa Mal-estar). Neste mundo sombrio, todos têm nomes que remetem a diferentes estados de mau humor.

Malaise completará vinte e cinco anos em breve. Ela está fadada ao azar, sugere a narradora. Malaise repara numa cliente, a bela Angine (Zar Amir Ebrahimi) — angina, em inglês, uma referência a doenças cardíacas —, a vaguear sem rumo pela loja de departamentos, e convence a outra mulher a jogar um jogo. Uma produção que surpreende e inspira que vale muito assistir.