Entrevista com Daniel Ottoni

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Daniel Ottoni é diretor de criação na Africa e professor de direção de arte da Escola Cuca. Anteriormente foi diretor de criação associado na R/GA e nos últimos 14 anos trabalhou como diretor de arte em agências como DM9DDB, NeogamaBBH, AgênciaClick, LeoBurnett, Beclick (joint-venture entre BorghiErh e AgênciaClick) e também foi diretor de criação associado nas agências digitais Garage e Sinc.

Daniel é formado em Publicidade e Propaganda pela PUC Minas e pós-graduado em Gestão de Negócios pela ESPM. Ele já trabalhou para clientes como Itaú, Bradesco, Vivo, TIM, Google, Coca-Cola, FIAT, Renault, Guaraná Antarctica, Diageo, Consul e LG. Conquistou mais de 60 prêmios em sua carreira como Cannes, D&AD, El Ojo, FIAP, Prêmio Abril, Effie, CCSP, Wave, Sinos, Cristal e teve trabalhos publicados na Luerzer’s Archive e Shots Magazine. Em 2015 foi jurado do NY Festivals e do Prêmio Abradi de Criatiividade Digital. Em 2016, representou o Brasil como jurado final no Ad Stars na Coréia do Sul.

PortfolioLovers.
No fundo, no fundo, o que fez você escolher essa profissão? 

Daniel Ottoni.

Tenho uma história engraçada sobre isso. Quando tinha 7 anos, abri uma revista e vi um anúncio de lingerie com uma modelo linda. Queria casar com aquela mulher. Confundi tesão com propaganda e estou nessa até hoje.

Minha mãe embora seja advogada, começou no teatro. Venho de uma família de músicos em que a cultura sempre teve um papel relevante. A minha formação educacional era voltada pra criatividade. Era mais sobre criar jogos e brincadeiras do que comprar na loja de brinquedos. Cresci assistindo TV e sempre esperava pelos comerciais. Muitas vezes ouvia meus pais comentarem que as propagandas estavam melhores que a programação. Na década de 90 comprava a Veja pra ver os anúncios. Aprendi a dirigir quase batendo o carro pra prestar atenção nos outdoors.

Tenho até hoje uma revista de propaganda dessa época com uma entrevista com o Nizan na capa, ele tinha acabado de fundar a DM9 como conhecemos e dizia que queria ser a Janete Clair da propaganda. Veja bem, eu não acredito que escolhi a propaganda. Ela me escolheu.

PortfolioLovers.
Muitos jovens tem dúvidas sobre sua escolha em ser um criativo. Que fatores ou “sinais” acha importante para ajudar nessa decisão? 

Daniel Ottoni.

Os sentimentos da ordem da primeiridade tão estudados na Semiótica. Sei que parece uma conversa teórica, mas a verdade é que se a pessoa não prestar atenção nas sensações mais básicas, não vai conseguir perceber se esse é o caminho que deve seguir.

É preciso procurar a verdade interior, tirar as amarras, preconceitos e listar tudo o que curte fazer. Começar nas coisas mais básicas. Gosta de luz, cores, formas? Gosta de desenhar? Gosta de inventar histórias? Gosta de contá-las? São pistas do que se pode fazer.

Não dá pra viver trabalhando com o que não se gosta. A vida é muito curta pra isso. Agora, é preciso testar porque existe uma diferença gigante entre gostar de ver um conteúdo pronto e gostar de criar e produzir esse conteúdo.

PortfolioLovers.
Anúncios, roteiros, ações, videocases, aplicativos, etc. Afinal, o que é legal ou não ter na pasta?

Daniel Ottoni. 

Boas ideias. É simples desse jeito, mas quero ir um pouco além. É claro que uma pasta variada mostra que o criativo tem uma boa capacidade de trabalhar a multidisciplinaridade que se tornou nossa profissão.

As pessoas estão confundindo modernidade com uso de tecnologia. Já me mostraram ideia de app que quando você está no ponto de ônibus abre ao ver ele se aproximar, o motorista recebe um sinal dentro do ônibus e ele pára pra você. Não é mais fácil esticar o braço? Outro cara me mostrou um dispositivo que você acopla no smartphone e ele se transforma em um barbeador. Primeiro que não acredito que alguém gostaria de fazer a barba com seu smartphone, mas ainda assim perguntei se era viável. Ele disse que não sabia responder, que aí teria que ver com um cara de tecnologia. Não dá pra gente ficar nesse território fantasioso.

PortfolioLovers.
Se pudesse escolher apenas 3 fontes de referências, quais seriam? 

Daniel Ottoni.

Andar na rua. A rua ensina melhor que qualquer escola. Os publicitários precisam descer da torrem de marfim e ter o termômetro da rua. Sempre acreditei nisso e vejo que as pessoas que admiro tem a mesma sensação. Uma vez conversando com o Leandro HBL, ele me disse que um bom diretor de filme precisa andar na rua, ver as pessoas, os comportamentos em cada situação. Pra gente não é diferente.

Pessoas que são fora do seu ciclo. Normalmente os publicitários andam e até casam com pessoas da mesma profissão. Inclusive é o meu caso. É preciso ficar atento pra ter pessoas fora do ciclo por perto. Tive um professor de sociologia que me contou que seu pai quando saia do trabalho no fim do dia, encontrava um amigo que era um mestre de obras. Os dois ficavam ali na Sé observando as pessoas voltarem do trabalho. Um dia esse amigo comentou que “o importante na vida são as pessoas e a faísca que sai quando elas se esbarram.” Não podemos perder isso de vista.

Exposições de arte. Já rodei o mundo atrás de exposições e museus. Eles são fonte de referências inesgotáveis. Pinterest e qualquer outro blog de inspiração não substituem você ver a obra ali na sua frente.

PortfolioLovers.
Você tem essa experiência legal de dar aulas na CUCA. Como é ser professor e o quanto isso interfere na sua visão da profissão?

Daniel Ottoni.

A experiência de troca é incrível e também me encontrei como professor. Tenho alunos que se tornaram amigos, que me ensinaram bastante e já recebi inúmeros feedbacks realmente emocionantes que guardo com carinho até hoje.

Uma vez fui a um cinema com minha esposa e a convidei a voltar pra casa a pé. Era um domingo, fim de tarde e estávamos na Paulista. Um skatista gritou meu nome e correu em minha direção. Era um ex-aluno. Ele me deu um abraço, se virou pra minha esposa e disse que eu mudei a vida dele. Travei. Claro que fiquei feliz e também emocionado.

Acredito que é preciso devolver pro mercado o que tenho aprendido com ele, por isso que dou aula. Tenho certeza que, de alguma maneira, esse cara vai fazer o mesmo.

PortfolioLovers.
Imagine que um dia, um de seus filhos escolha ser um criativo. Que conselhos daria?

Daniel Ottoni.

Eles inevitavelmente vão ter que ser criativos. Não consigo imaginar nenhuma profissão no futuro em que a criatividade não esteja presente de forma bem mais marcante. O meu conselho é: procure aliar criatividade com gestão, seja honesto e justo com as pessoas. Não abra mão de seus valores e, principalmente, divirta-se.

Minha teoria é a de que o mundo como conhecemos acabou por volta de 2010. As pessoas estão esperando Jesus voltar, chamar todo mundo e dizer “Pessoal, acabou.” Isso não vai acontecer. Já estamos vivendo em uma era pós-apocalíptica. Melhor a gente fazer uma festa com os brigadeiros que sobraram.

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